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Empresa júnior é também caminho para empreendedorismo


Até mais do que num estágio, a experiência numa empresa júnior visa propiciar ao estudante a compreensão geral do funcionamento e da atuação de uma companhia. Afinal, além de lidar com os eventuais clientes e com os projetos desenvolvidos internamente, os alunos têm de cuidar do funcionamento da própria empresa. Para tanto, assumem cargos de gerência e direção. Oportunidade que, evidentemente, não existe para estagiários.

Assim, além de colocar em prática as teorias apreendidas em sala de aula - seja qual for o curso - e ter essa chance de conhecer a atuação empresarial do ponto de vista hierárquico, participar de uma empresa júnior pode ainda ser uma oportunidade de empreender. Essa é a proposta descrita no Conceito Nacional de Empresa Júnior, publicado pela Brasil Júnior (Confederação Brasileira de Empresa Júnior), que define como uma das finalidades das empresas juniores fomentar o empreendedorismo.

Segundo Flávia Leal, diretora de comunicação da Brasil Júnior, isso acontece em função das chances organizacionais dentro destas empresas. "A grande oportunidade é justamente o fato de que os universitários têm autonomia para gerir como se a empresa fosse deles, apenas com orientação dos professores. Alem disso, há projetos externos em que os estudantes têm contato com o mundo real, com prestação de serviços para o mercado", diz ela.

Dentre os possíveis benefícios para os novos empreendedores, Flávia cita o ganho de conhecimento técnico sobre a profissão obtido a partir do desenvolvimento de projetos, da necessidade de realizar análises setoriais e de fazer planos de negócios. Isso aliado ao desenvolvimento da capacidade de relacionamento com a rede de contatos e todos os interessados em potencial no funcionamento empresa júnior. "É um diferencial útil ao empreendedor e que várias empresas buscam nos estagiários e trainees", afirma ela ao contar que a empresa júnior atua como uma organização convencional, com necessidades semelhantes.

O primeiro desafio imposto pelo processo seletivo de ingresso à Iniciativa Júnior, empresa do curso de administração da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), é justamente a elaboração de um plano de negócios fictício. Apesar disso, todos os argumentos do plano devem ser fundamentados com base na realidade. Ou seja, o projeto deve ser viável e trazer cotações de preços, listas de fornecedores e todos os elementos inerentes a um plano de negócios. De acordo com Stephane Ponte Mattos, diretora de projetos da empresa, nesse primeiro momento a seleção leva em conta a consistência desse plano.

Banho de realidade

Ao ser aprovado nessa etapa, o aluno é encaminhado para uma das diretorias da empresa, onde deve elaborar soluções para um problema cotidiano do departamento. A finalidade desses desafios é trazer os alunos para o ambiente de mercado, afirma Stephane. "O pessoal entra muito cru na empresa júnior e passa a ter noção de como é uma empresa, mais preparados para assumir algum cargo no futuro. Aqui ele desenvolve a capacidade de tomar decisão", afirma ela.

Stephane é aluna do segundo ano de administração da UERJ e afirma que a vivência na empresa júnior tem sido importante para o desenvolvimento de responsabilidades e também para o aproveitamento do conteúdo de sala de aula. "Tenho visto a aplicação prática do que aprendo na teoria com mais responsabilidades do que num estágio convencional, pois aqui estamos no gerenciamento da empresa", explica ela.

Marcos Hashimoto, professor de Empreendedorismo e coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), acredita que o ganho mais significativo para os alunos que passam por empresas juniores é o que chama de banho de realidade. "Os alunos se dão conta de que nem tudo o que aprendem na faculdade ocorre na realidade, que nem sempre a teoria corresponde à prática", declara ele. Hashimoto, que compõe o conselho da empresa júnior do Insper, conta que a maior parte dos clientes atendidos é formada por pequenas e médias empresas.

Assim, a vivência serve também, complementa ele, para que os empresários juniores vejam que a maioria dos clientes atendidos são mal estruturados. Isso é útil, na opinião do professor, para que os estudantes entendam que os empreendedores em geral carecem de conceitos e procedimentos básicos de gestão. "As metodologias modernas que eles aprendem estão muito acima do que os empreendedores precisam e querem. Primeiro é necessário arrumar a casa, organizar as finanças e dimensionar as equipes. Coisas básicas que o aluno precisa colocar em prática para entender", comenta Hashimoto, que destaca ainda que o aprendizado serve para ser aplicado tanto caso o aluno queira trabalhar numa organização quanto se escolher ir para o empreendedorismo. "Coincidência ou não, os meus melhores aluno de Empreendedorismo (disciplina do quarto ano de administração) são os que passaram pela empresa júnior", garante o professor.

Embora traga ganhos pessoais para o aluno que pretende se tornar empreendedor, as empresas juniores não têm a função de atuar como laboratório de projetos ou de futuros empreendimentos. Flávia lembra que, apesar do título de júnior, são empresas plenamente estabelecidas que trabalham com projetos. "A júnior serve para aprender. O que acontece é que às vezes o aluno tem uma ideia de um software, por exemplo. Daí traz para a empresa e desenvolve em conjunto com outros estudantes para chegar a um produto", explica ela.

Hashimoto, por sua vez, conta que já viu muitos casos de alunos que passaram pela empresa júnior com a intenção de se tornar empreendedor. "Muitos percebem que ainda não estão preparados para empreender por conta própria e encaram o aprendizado como um desafio. Mas há também os que desistem totalmente da ideia. Depende da motivação original de cada um", avalia ele.

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