Página Inicial  > Crise mundial não é econômica
 Compartilhar  Versão para impressão  E-mail

Crise mundial não é econômica


A maior crise mundial não é a econômica, mas sim a de valores. Foi o que disse Douglas Flinto, diretor-presidente do Instituto de Ética nos Negócios, durante o segundo dia de palestras do 3º UniÉtica (Programa Nacional de Ética nos Negócios para Universitários), realizado na noite da última quarta-feira, 18 de agosto. O evento, transmitido simultânea pelo Universia Brasil, segue até o dia 20.

"A cada 3,5 minutos morre uma pessoa de fome no mundo. Cerca de seis mil crianças morrem de sede diariamente. Sem contar os casos de corrupção e o tamanho da destruição na camada de ozônio", cita Flinto, que acredita que o caminho da mudança não está na sustentabilidade como muitos costumam dizer, mas sim na ética. "Em 2003, o termo mais usual no vocabulário empresarial era Responsabilidade Social. Com o aquecimento global, em 2007, a termologia foi substituída pela Sustentabilidade. A Ética, no entanto, engloba todos esses preceitos e transpassa os tempos", garante ele.

Flinto arrisca inclusive a remontar o tripé da sustentabilidade e substitui o nível econômico pelo ético. "A economia não é uma responsabilidade, até porque ela está intrínseca ao negócio. E mais, somente com ética é possível ser socialmente responsável e ambientalmente sustentável", justifica. Para conseguir esclarecer melhor seu ponto de vista, ele define o significado da palavra ética como o conjunto de atitudes que as pessoas têm quando estão sendo vigiadas, como parte da filosofia que define os deveres do homem, ou mesmo como tudo que for bom, justo, nobre, amável, correto, puro e de boa fama.

Na opinião dele, enquanto o dinheiro for mais importante do que o amor não será possível acabar com a crise de valores do mundo. Segundo o diretor-presidente, todos tentam ser com a intenção de ter sempre mais. "Mas quando não se consegue ser, tampouco ter, o caminho é aparecer", aponta Flinto. "Esse modelo gera frustração, até porque só existe um Ronaldinho, um presidente da república e um único presidente em uma empresa. E a pressão do próprio mercado tem feito da depressão a doença do século", completa ele.

A ética, no entanto, não está restrita às empresas. Flinto garante que as organizações não têm vida e que são os CPF (Cadastro de Pessoa Física) de cada um dos colaboradores que formam o CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) de qualquer negócio. É por isso que ele afirma que a ética da empresa é reflexo da ética de seus funcionários. "Ética não está no DNA, é um comportamento difícil de ser praticado principalmente porque somos seres humanos - imperfeitos - e pelos dilemas éticos. A nobreza, porém, está na busca constante pela excelência na ética", afirma.

Apesar das dificuldades, ele acredita ser fácil formar um cidadão ético, basta mostrar o caminho e dar o exemplo. Portanto, Flinto é enfático ao dizer que o futuro depende principalmente da chamada geração Y. "Geração que tem o símbolo da intercessão. Você é que vai escolher qual é o caminho que vai seguir: o bom ou o errado?", questiona. Ele aponta que 20% dos cargos de lideranças hoje são ocupados por jovens com menos de 20 anos. "O que os tornam referenciais e ainda mais responsáveis pela formação da geração Z", enfatiza o diretor-presidente.

Ainda que a crise mundial de valores também seja reconhecida por Miguel Dantas, gerente de sustentabilidade da Goodyear, os problemas ecológicos, segundo ele, têm contribuído para uma mudança comportamental tanto das organizações como das universidades. "É uma cadeia impulsionada pelas necessidades do mercado, que automaticamente são repassadas para a academia - responsável pela capacitação dos novos profissionais. Não é a toa que hoje é possível ver centros dedicados ao tema em diversas instituições de ensino nacionais e internacionais", explica ele.

Dantas asseguram que as empresas já estão cientes de que não podem tocar seus negócios simplesmente pelo lucro. "Quem não adotar sistemas sustentáveis vai perder mercado e inclusive talentos", alerta ele. Para confirmar essa afirmação, Luiz Fernando Martha, pesquisador do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), cita o caso da companhia de energia Enron. "Com a descoberta de falcatruas, o patrimônio de uma década foi destruído em poucos minutos. Os acionistas tiveram um prejuízo de US$ 60 milhões", conta ele, que relaciona o fato à falta de integridade, transparência e ética de parte de seus funcionários e, consequentemente, da empresa.

Não basta, no entanto, as empresas terem a consciência e aderirem o discurso da sustentabilidade. "É preciso ação, que se inicia pela busca de profissionais com esse perfil", alerta Dantas. Segundo ele, não adianta ter MBA, é preciso ter engajamento e disposição para construir soluções que não existem. "A escolha deve ser mútua. Os valores organizacionais e pessoais devem estar em sincronia", sugere ele, que concluiu sua apresentação com o discurso de Oscar Motomura, fundador e presidente da Amana-Key:

"Se ética é a escolha pelo bem comum:
Decidir não agir porque existem dificuldades e incertezas... não é ético
Decidir agir pequeno porque é mais confortável... não é ético
Decidir omitir suas propostas, idéias e ações para não ir contra a maioria... não é ético
Decidir viabilizar o viável em vez de procurar tornar possível o impossível... não é ético
Decidir usar apenas parte do seu potencial ("poupando-o" para interesses pessoais)... não é ético
Decidir não persistir até o limite de suas forças... não é ético
Decidir não agir, se manter em silêncio, deixando o medo prevalecer... não é ético
Decidir se conformar com a "letra da lei" em vez de persistir pelo "espírito da lei"... não é ético
Decidir deixar seu poder, como cidadão do mundo, nas mãos dos outros... não é ético
Decidir não explorar novos caminhos porque ninguém até hoje tentou... não é ético
Decidir não fazer face aos desafios de grande escala e complexidade porque parecem "além da conta"... não é ético
Decidir deixar de buscar o melhor e se conformar com o "negociável"... não é ético
Decidir protelar ações ousadas de novo e de novo esperando "o momento certo"... não é ético
Decidir abster-se de agir para não contrariar convenções de sua "comunidade profissional"... não é ético
Decidir não ir em frente porque não será reconhecido como o autor da idéia... não é ético
Decidir "entrar no jogo" fingindo não perceber manipulações em processo... não é ético
Decidir viver no reino das idéias, dos diagnósticos e das teorias em vez de assumir os riscos da ação... não é ético
Decidir agir só quando tudo puder ser cientificamente provado, mesmo quando a verdade for auto-evidente... não é ético
Decidir rejeitar toda e qualquer proposta "diferente" (inclusive suas próprias) mesmo quando as idéias tradicionais "não radicais" não estiverem funcionando... não é ético
Decidir rejeitar qualquer proposta que pareça "idealista" ou "utópica"... não é ético
Decidir deixar tudo como está porque o caminho para a perfeição é muito complexo e difícil de implementar... definitivamente não é ético."

 Compartilhar  Versão para impressão  E-mail
Avaliações (1) Total  
  • Atualmente 5.0/5 Estrelas.
If you are a human, do not fill in this field.
Clique nas estrelas para classificar.